Kamukuwaká – Recriando a gruta sagrada Indígena

Réplica em 3D e em tamanho real recupera os desenhos milenares vandalizados na caverna sagrada para os povos do Xingu.

Intercâmbio Indígena e Ação Climática
Factum Foundation studio em Madrid- inauguração da réplica/ 2019

O projeto em linhas gerais

Para os povos indígenas do Xingu que vivem na Amazônia legal brasileira, a antiga caverna de Kamukuwaká é o local histórico mais sagrado. É conhecido como ‘seu grande livro do conhecimento’. Há séculos, as gravuras nas paredes da caverna s’ao a basa da cosmologia, costumes e a história ancestral indígena e inspiram rituais tradicionais no Xingu, danças, canções, pinturas corporais e decoração de cerâmica.

O sítio arqueológico foi tombado como patrimônio cultural em 2010 pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional do Brasil) e fica dentro de uma fazenda particular. Desde a década de 1960 os Wauja reinvindicam que a gruta sagrada e o rio Batovi sejam anexados ao território Indígena do Xingu.

Em 2018, durante uma expedição, o povo Wauja descobriu que os desenhos talhados nas paredes da caverna haviam sido raspados e destruídos. Os agricultores têm expandido as plantações de soja e as pastagens nas fronteiras da Terra Indígena demarcada, causando graves impactos culturais e climáticos.  O vandalismo foi provavelmente um ataque cultural calculado para apagamento deliberado da memória Indígena.

Em resposta a esse ato criminoso, especialistas da Fundação Factum trabalharam com nossos parceiros Indígenas Wauja para recuperar os desenhos e construir uma réplica da gruta em tamanho real (8 metros de largura x 4 metros de altura).

Após receber um financiamento da Iron Mountain, o PPP iniciou os preparativos para enviar o fac-símile do estúdio da Factum em Madrid para o território Indígena. A réplica ficará alojada no Centro Cultural e de Monitoramento Territorial, construído na aldeia de Ulupuwene. (role para baixo para saber mais)

Destruição Criminosa e a recriação da gruta Kamukuwaká

Como parte do projeto  The Challenge of the Xingu do PPP, uma expedição ao local em setembro de 2018 – organizada pela comunidade Wauja, com uma equipe da Fundação Factum e antropólogos brasileiros – descobriu que seus antigos petroglifos haviam sido sistematicamente destruídos: marcas de cinzel, uma superfície lascada e fragmentos espalhados pelo chão foram tudo o que restou.

Você pode ler mais sobre esta história na BBC News (em português).

A caverna e seu conhecimento teriam sido perdidos para sempre, se não fosse por um projeto inovador que restaurou as gravuras sagradas que deram vida à caverna Kamukuwaká em uma réplica em tamanho real.

A equipe da Factum Foundation empregou tecnologia de alta resolução (fotogrametria e digitalização LiDAR) para registrar a caverna. Em seguida, utilizando tecnologias de impressão 3D de última geração e com referência à documentação fotográfica anterior, bem como à memória coletiva dos Wauja, foi realizada uma restauração digital com precisão forense das gravuras rupestres, resultando em um fac-símile 1:1 da entrada até a caverna com todos os petroglifos, medindo 8x4x4m.

Inauguração da réplica, Madri, 2019

Um ano após a descoberta do vandalismo, nos dias 18 e 19 de outubro de 2019, a Factum organizou um evento de dois dias na sua oficina de Madrid para inaugurar o fac-símile da caverna restaurada. Um dos líderes do povo Wauja, Akari Waurá, historiador oral e cantor, e seu filho Yanamakakuma Waurá, ao lado de Takumã Kuikuro, cineasta do povo Kuikuro, e Shirley Djukuma Krenak, líder do povo Krenak, inauguraram a gruta com um ritual.

Durante o evento, eles explicaram a importância da caverna e seu significado para a preservação das culturas indígenas e discutiram formas pelas quais o fac-símile da caverna pode servir melhor às comunidades indígenas no Brasil.

“A reconstrução da caverna Kamukuwaká e das gravuras é um símbolo da nossa resistência, apesar de tudo o que fazem para nos minar.”

Akari Waura, cacique da aldeia Tetepeweke

8.000 KM: A viagem da réplica da Espanha para a Terra Indígena do Xingu

No início de 2023, o projeto foi selecionado para financiamento da Living Legacy Initiative da Iron Mountain. O apoio permitiu que a PPP, a comunidade Wauja e seus parceiros começassem a planejar a logística para levar a réplica de Madri até a aldeia Ulupuwene, na Terra Indígena do Xingu.

A Associação Indígena Ulupuwene decidiu abrigar a caverna em um novo Centro de Monitoramento e Cultura – o primeiro Museu Indígena do Xingu – no coração da aldeia. A construção foi iniciada no inverno de 2023, período de seca na região.

O novo Centro de Monitoramento e Cultura no coração do Xingu

O centro cultural e educacional foi construído de acordo com princípios de arquitetura sustentável, utilizando bioconstrução. O prédio de 150 metros quadrados abrigará a réplica da caverna no coração da Terra Indígena. Será aberto a visitantes do território indígena e de longe.

O novo centro será equipado com painéis solares, conexão de Internet, escritórios e espaços de armazenamento para permitir ao povo Wauja monitorizar o território e o rio Batovi 24 horas por dia, 7 dias por semana, através de drones, câmaras e GPS.

Toda a aldeia se envolveu na construção do novo centro cultural e de monitorização. Esperamos inaugurá-lo na primavera de 2024, quando a réplica chegar ao território indígena após uma viagem de 8 mil quilômetros de navio entre Valencia e o porto de Santos e caminhão até o território.

“Acreditamos que ao compartilhar a história de Kamukuwaká podemos ajudar a convencer o homem branco a não se destruir.”

Piratá Waurá - cineasta Wauja e educador